ESCRITOS DA BEATA ALEXANDRINA

“SENTIMENTOS DA ALMA”
— 1945 —

8 DE FEVEREIRO

 

A minha dor! Nem eu sei dizer. Que noite tão tenebrosa e triste! Que horrores dentro em mim! Sinto que não posso resistir a tanto. Ó dor, ó dor, horrível tormento! Não posso demorar aqui mais tempo. Assim o disse ontem a Jesus:

Não posso, não posso, meu Amor, demorar-me aqui!

Quero deixar o mundo e quero levá-lo comigo; não o quero e amo-o; não lhe pertenço e ele é meu; aborreço tudo o que é do mundo e quero prendê-lo, abraçá-lo a ponto de não mais o deixar.

Ó mundo, o que hei-de fazer por ti! Quero voar para o céu, quero partir para fora deste desterro, quero ir para a minha Pátria e quero levar-te comigo; quero entrar no céu, mas com toda a humanidade.

Ai, meu Jesus, o que hei-de eu fazer? Ó meu Jesus, deixai-me ir ao Limbo, não Vos esqueçais que são Vossas as almas que lá estão! Quero ser vítima, levai-me ao sacrifício por elas! Dai-lhes o Céu, o Céu, meu Jesus, dai-lho pela Vossa morte, pelas dores da Mãezinha querida!

Eu não queria ter um minuto de sossego para o meu corpo enquanto o mundo existisse, queria que a minha vida fosse percorrê-lo todo dum lado ao outro, sem parar um momento, sempre de rasto, sempre a pisar espinhos, num banho de sangue, numa só chaga, para libertar da escuridão as almas queridas, filhas do Vosso sangue, meu Jesus! Não sei que mais sofrimentos possa desejar para o meu corpo.

Ouvi o meu brado, meu Deus e Senhor! Eu aceito tudo o que seja dor, eu aceito tudo o que seja o martírio, mas quero o mundo salvo e na Vossa glória as almas do Limbo! É pelo amor com que Vos quero amar, é com a ânsia de Vos dar a maior das consolações que eu quero salvar e levar ao céu todas as filhinhas do Vosso Divino Coração. Amo-as, porque em todas Vos vejo a Vós; amo-as, porque primeiro de tudo e acima de tudo sois o preferido, ó meu Amor.

Sim, parece-me estar louca por Vos amar! Não sinto o amor que Vos tenho, mas sinto a loucura por Vós. Sim, meu Jesus, fazei-me perder e desaparecer para sempre no Vosso amor infinito!

O demónio odeia-me, atormenta-me. Apresentou-se na minha frente na figura dum monstro aterrador; era grande como uma casa. Saíam dele tantas serpentes da grossura de pessoas, de bocas abertas e as línguas de fora alguns palmos; estendiam-se até perto de mim. Passado algum tempo, caiu sobre o meu corpo a manha maliciosa desse maldito. Arrumou de mim o terço: não o queria. Ele dizia-me: “vamos ao prazer”, acrescentando palavras do que há de pior.

- Vale mais um momento de prazer – dizia ele – do que milhões e milhões de céus.

Só quando me pareceu ele ter conseguido o que desejava é que eu, de olhos fitos no céu, clamei muitas vezes:

- Valei-me, valei-me, ó querida Mãezinha!

Senti a dor que já expliquei ao reverendíssimo Padre. Não era dor de tirar só uma vida, era dor de tirar todas as vidas, eu parecia-me perder a minha. Quando esta dor caiu tão fortemente sobre mim, o maldito mais se enfureceu, não gostou que eu a sentisse. A raiva dele ainda mais consumiu o meu corpo. A Mãezinha veio a socorrer-me, tomou-me nos seus santíssimos braços e disse-me:

- Aqui estou, minha filha, a defender-te! Vem para os meus braços, vem descansar. É a Mãe a defender a sua filhinha, é a Mãe a defender e a consolar a esposa mais amada de Jesus. Não pecaste, filhinha! São momentos de tanta reparação, de tanto amor para Jesus! Coragem, sofre contente!

- Ó Mãezinha, que martírio que me custa tanto, tenho receio de pecar! Tenho vergonha de estar na vossa presença e na de Jesus.

- Oferece-nos tudo isto, sossega, não pecas. Recebe graça, pureza e amor.

Estreitou-me ao seu santíssimo Coração com tanto carinho, cobriu-me de beijos e mimos e retirou-se. Apesar da vida e conforto que recebi, fiquei por muito tempo a sentir a dor de que acima falei. Custou-me a resistir. Contudo, confiei na Mãezinha, Ela não vinha enganar-me. O que teria sido de mim e o que será ainda sem este conforto do Céu!

Ó vida triste e amargurada! Sofro com tudo. Continuo a sofrer os remorsos, essa traça que vai roendo nas almas de alguém. Quero-lhes tanto em Jesus e receio tanto a presença delas. Sofro com as infelicidades de alguém que me tem ferido tanto. É tão grande a dor que sinto por saber que sofrem, entristeço-me por eles.

Lá vem a morte para mim. O que vejo em mim! O que sinto na minha alma! Que tristes recordações! Sinto e vejo os tormentos que me esperam. Sinto que sou apedrejada, as pedradas batem em meu coração. Sinto que me retiro do convívio das pessoas, fujo para a solidão para em silêncio poder chorar.

Oh, quantas lágrimas de perda, oh, quantas lágrimas de vergonha por me ver revestida de todas as maldades e estar assim na presença do Eterno Pai! O amor obriga-me à dor. De lábios mudos, olhos cerrados, entrego-me a tudo: lá vou para a morte. Uma chuva de espinhos cai sobre mim, o meu corpo vai ser um leproso. Mas estou de braços abertos, com um terno sorriso e uma mansidão sem igual, escondendo e disfarçando tudo.

- Ai, meu Jesus, eu só queria para maior honra e glória Vossa saber dizer o que vai dentro em mim, o que sofrestes por nós! Ó que ternura, ó que bondade! O inocente, o inocente Jesus!

 

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